Filme Recomendado: “Os Intocáveis” (1987)

(“The Untouchables”, 1987, Dir.: Brian De Palma) - Imagem Divulgação - Paramount Pictures
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A percepção do que é bom ou não em uma obra de arte tem tantas variáveis, muda com o passar do tempo, passa por revisões… é tudo muito subjetivo. Dizem que você deve esperar 20 anos para saber se um filme é realmente bom ou não. Às vezes, um bom filme é apenas aquele que tem uma série de sequências memoráveis que juntas conseguem fazer sentido e transmitir uma mensagem coerente. Um filme perfeito, se é que existe algum que merece o título, é aquele que faz isso tudo com os melhores recursos disponíveis: a mão de obra, a técnica, a tecnologia, o talento, a criatividade e até as boas intenções. Sempre que penso nisso, o primeiro exemplo que me vem à cabeça é “Os Intocáveis”, os nomes envolvidos em sua produção e seus capítulos inesquecíveis: tem a sequência da escadaria, a do tribunal, a da ponte canadense, enfim… você pode escolher. São muitos momentos grandiosos, um atrás do outro. Nada ali é descartável, nenhum deles poderia ser melhorado, não falta nada.

A perfeição em “Os Intocáveis” começa já na abertura, quando a trilha de Ennio Morricone estoura na tela feito uma saraivada de balas. Nos créditos, você vê uma verdadeira seleção mundial de profissionais da indústria cinematográfica e muitos dos meus heróis particulares: Kevin Costner em início de carreira, Sean Connery roubando o filme, Robert De Niro interpretando um poderoso chefão que existiu de verdade, Brian De Palma esbanjando tudo que aprendeu com Hitchcock, Ennio Morricone provando porque é o maior maestro do cinema e ainda David Mamet como roteirista e Giorgio Armani como figurinista, quase um excesso de ostentação.

1987 foi um ano de ótimos policiais como “Máquina Mortífera” (presente), “RoboCop” (futuro) e o próprio “Os Intocáveis” (passado), todos considerados bem violentos, cada um representando a visão da lei em uma época diferente, com valores distintos do que pode ser considerado um “mocinho”. “Os Intocáveis” se diferenciava por ser levemente baseado em fatos verídicos e por mostrar um herói menos cínico, com um caráter indiscutível, um idealista de rígidos códigos morais, ou seja, um herói das antigas. Eliot Ness (Kevin Costner) é o agente do tesouro incorruptível que deve capturar o maior gângster vivo, Al Capone (De Niro), praticamente uma missão suicida. Uma abordagem clássica muito diferente, por exemplo, da série “Boardwalk Empire”, que focou mais nos gângsters da geração de Capone e tratava Ness como um simples burocrata fazendo seu trabalho, muito provavelmente mais próximo da realidade.

“Os Intocáveis” não, o filme é maniqueísta até a medula. Ness é o ícone do bem e Capone é a personificação do mal . O que Ness aprende em sua jornada é que, para se vencer o demônio, você deve jogar de acordo com as regras dele. O letreiro inicial avisa quem manda: “Chicago, 1930, essa é a época dos poderosos chefões. Essa é a época de Al Capone.” Com a câmera no teto apontada para baixo, De Palma nos apresenta o vilão deitado com um pano no rosto. Ele parece morto, mas na verdade está fazendo as unhas e a barba enquanto dá entrevistas. O poder da mídia é destaque no filme todo e logo percebemos que os jornalistas estão mais para o lado da máfia do que para o lado da lei. Ali é onde está a audiência, a graça, o dinheiro, o poder, e você sabe, as pessoas más se divertem muito mais. A apresentação de Capone dá espaço para a cena da garotinha no bar. Rapidamente, ela e o bar vão pelos ares. A primeira lição foi dada: Capone é um bandido cruel que não poupa nem criancinhas inocentes. Em sua casa perfeita, ao lado de sua prendada esposa (Patricia Clarkson), Ness sente o golpe. Todos os lados do conflito foram apresentados: Capone contra Ness, Ness contra Capone e a população indefesa no meio do tiroteio.

Quando vemos o rosto de Eliot Ness pela primeira vez, ele já está sendo apresentado à imprensa como o paladino que vai defender a Lei Seca e acabar com a máfia em Chicago. Sua primeira noite de ação acaba mal e, voltando para casa derrotado, ele conhece Jim Malone (Sean Connery), um guarda que o repreende por jogar papel na rua. Um homem correto que não cresceu na carreira por recusar propina, o professor que vai transformar Ness de novato promissor em policial de verdade. Os dois recrutam o italiano bom de mira George Stone (Andy Garcia) e o contador Oscar Wallace (Charles Martin Smith), peça importante na estratégia de capturar Capone a qualquer custo, mesmo que seja por sonegação fiscal — grande piada da justiça mundial, um dos maiores criminosos do século XX foi realmente preso pelo fisco.

O bem e o mal alternam forças ao longo de “Os Intocáveis”. Então Capone acorda feliz em seu luxuoso hotel enquanto Ness é motivo de piada na corporação. Enquanto Capone executa um traidor com um taco de beisebol durante o jantar, Ness coloca a filha para dormir, com direito ao mais do que cafona “beijo do esquimó”. De Palma segue alternando sequências de puro ódio com outras de extrema ternura. Se a “cena da batida na ponte canadense” é uma vitória retumbante dos mocinhos, em breve Wallace será executado no elevador da delegacia e Malone será metralhado numa cena angustiante com aqueles planos-sequência que De Palma domina. A morte de Malone é o momento mais hitchcockiano de “Os Intocáveis”, quando ele coloca a câmera em primeira pessoa, no ponto de vista do assassino, e termina com Capone na ópera, recebendo a notícia ao som de “Ridi, Pagliaccio”. Robert De Niro alterna lágrimas e risos enquanto Sean Connery rasteja ensangüentado no chão de casa. Só Al Capone foi capaz de matar James Bond.

Ness e Stone ainda estão vivos e têm a informação da chegada do contador-chefe à estação de trem, o que nos leva à clássica “cena da escadaria”. Trata-se da famosa homenagem de De Palma a um marco do cinema, “O Encouraçado Potemkin” e a sua sequência mais famosa, a da escadaria de Odessa, quando uma mãe desesperada perde o controle do carrinho de bebê em meio à guerra. O filme do soviético Sergei Eisenstein, obrigatório em qualquer aula de cinema, inventou todas as regras conhecidas de edição: cortes, ritmo, divisão do tempo em frações. A cena de “Os Intocáveis” vai além da mera citação do carrinho de bebê na escada. Temos lá Eliot Ness, George Stone, gângsters armados até os dentes, um contador que não pode morrer, pessoas inocentes passando pelo local, marinheiros que aparecem apenas para levar chumbo e compor a grande homenagem a “Potemkin” e, enfim, uma mãe que só quer subir a escadaria com seu bebê no carrinho. O caos completo. De Palma pega aquelas regras de manual do cinema, mistura com tudo que aprendeu após anos e anos imitando o Hitchcock, abusa do virtuosismo técnico e cria sua própria aula para a posteridade. É tudo lindo demais.

Al Capone vai a julgamento mas está tranquilo com os jurados todos no bolso. Preocupado, Ness retira o capanga de terno branco (Billy Drago) do recinto, ele está armado e tem o endereço de Malone anotado numa caixa de fósforos. É quando Eliot Ness finalmente aprende a jogar sujo: ele aponta a arma contra o inimigo desarmado e o som da sua consciência é a trilha de Morricone. Quando ele empurra o vilão de cima do prédio, a justiça já perdeu e a vingança irracional prevaleceu. Ness não é mais o policial ético e o homem de família bonzinho, porque ele amadureceu, perdeu amigos, ganhou cicatrizes e descobriu que o mundo é um lugar sujo. Nós aqui fora acompanhamos o sentimento: ver o sujeito se estatelar lá embaixo transmite uma satisfação maior do que a condenação de Capone a míseros 11 anos atrás das grades. O roteiro de “Os Intocáveis” devia isso para a gente, para a história real. O último diálogo do filme deixa claro que Eliot Ness já não é mais o mesmo, ou que pelo menos ele aprendeu a ser irônico. Quando o repórter pergunta o que ele vai fazer se acabarem com a Lei Seca, ele diz:

ELIOT NESS
Acho que vou tomar uma bebida.

Eliot Ness sempre será um homem ao lado da lei, seja ela qual for. A câmera sobe e ele vai para casa dormir o sono dos justos com a sensação de dever cumprido, coisa que o Martin Riggs de “Máquina Mortífera”, o John McClane de “Duro de Matar” e todos os tiras anti-heróis da nossa geração jamais devem ter conseguido. Isso porque Eliot Ness é de 1930, um mocinho fora de moda, um sujeito com aquela força de caráter dos personagens de Gregory Peck em “O Sol é Para Todos”, Gary Cooper em “Matar ou Morrer”, Henry Fonda em “As Vinhas da Ira” e James Stewart em “A Felicidade Não Se Compra”. “Os Intocáveis” em nenhum momento parece um filme feito em 1987, ele já nasceu com essa aura de clássico.
A receita da perfeição: sequências antológicas, virtuosismo técnico a serviço de uma boa história, uma trilha inesquecível, atores incríveis no auge de suas carreiras, personagens que vão até o fim para defender aquilo em que acreditam, um diretor que ama o cinema acima de tudo e ainda é um dos únicos capazes de me fazer chorar com um movimento de câmera. Fim da lição.

Veja o Trailer:


PARAMOUNT PICTURES

Fonte: medium.com

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